ArenaILUstrada » Blog Archive » Tita
nav-left cat-right
cat-right

Tita

Neste post abrimos o ano de 2016 com uma ideia diferente, comentando um novo projeto da casa em pleno andamento, e com muito trabalho pela frente. Tentando esmiuçar as etapas iniciais da produção de um Álbum em quadrinhos, contando aí já ao menos 2 anos entre pesquisa, formatação e conceitos iniciais, o que procuro é aproximar quem tiver interesse nessa mídia da realidade que move o tema entre a intenção inicial e a concretização de uma história narrada graficamente.

Apoiados pelo PROAC, o Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, o projeto “Tita” quer engrossar o movimento deste verdadeiro levante promovido pela nova geração de bons autores independentes dos quadrinhos nacionais. Então, sem demora, vamos ao primeiro tópico desta espécie de diário de produção: a decupagem do roteiro.

Como já tive algumas experiências dividindo autoria com outros narradores, é natural que o que funciona muito bem para um caso não sirva tanto para um outro, assim dessa vez procurei assumir a condução desse aspecto do projeto também, pois apesar de acreditar muito no valor do trabalho colaborativo, aqui temática, universo abordado e tratamento dado são bastante particulares. Assim optei por estruturar o roteiro estabelecendo todas as sequências bem sucintamente, orientando o andamento geral da história sem no entanto fechá-lo, estabelecendo locações, personagens centrais e secundários, principais eventos, mas mantendo espaço para que a história possa crescer em seu desenvolvimento natural.

Alguém já disse que criar um universo ficcional é procurar algo ainda mais consistente que a própria realidade, e é interessante como nessa fase surge uma profusão de questões. Em que momento, que lugar, com que motivação levamos estas entidades de papel pelo fio de seu destino? Respondendo a cada uma destas, vão surgindo novas e quando nos damos conta temos um modelo em movimento. Aí é hora de começar a colocar as coisas em termos visuais.

Há muitas maneiras de decupar um texto visualmente e já li muito sobre diferentes posturas para resolver o problema. O que procuramos, basicamente é criar uma narrativa sequencial que conte os eventos até mesmo com a supressão do texto, que na forma de diálogos, virá bem adiante. Para deixar duas boas dicas aqui recomendaria o excelente – Framed Ink: Drawing and Composition for Visual Storytellers de Marcos Mateu-Mestre, e os ótimos exemplos de narrativa essencial de Hans Bacher em seu Dream Worlds: Production Design for Animation. Ambos tratam da questão do comportamento do olhar como uma câmera virtual, captando tudo que for de interesse contribuindo ao ritmo da história narrada.

Como se criasse storyboards para um filme, e é basicamente isso, procuro focar nas ações sem me prender a minúcias de design e acabamento. Aqui o que vale é colocar as ideias no papel, estabelecer o andamento da narrativa. Para começar esta fase costumo listar os principais eventos previstos no roteiro, cena à cena. Não me preocupo ainda com a divisão em páginas, que de modo geral recebem cerca de 7 quadros cada uma, para um ritmo equilibrado. Isso pode variar é claro, para mais ou menos quadros, mas diagramação e pontos de virada página a página é algo que planejo depois.

Mantendo um grid fixo, ou seja, um formato idêntico para todas as cenas, elas conservam o mesmo “peso visual”, e a sequencialidade não é afetada por ênfases antes da hora.  Nesse pequeno filme que vai surgindo, o que vale é a história contada.

Não que isso torne a coisa mais fácil, pois raros os casos em que uma sequência já nasce redonda, com o exato número de cenas previsto. Quando a dinâmica visual pede algo mais elaborado é fácil acontecer de 7 cenas planejadas se transformarem em 15, 21 quadros. Aí é hora de respirar e entender que algo precisará ser editado para comportar-se dentro do planejamento geral, e por isso desenhos rápidos e sem muitos detalhes ajudam a cortar sem grandes perdas na execução final.

Neste post há concepts de diferentes etapas, o que prova que a “bússola criativa” de cada um de nós aponta muitas vezes para diferentes direções, e em momentos distintos, não linearmente. No começo, um concept sem um sentido particularmente claro se conecta a uma necessidade da história que surge muito depois e assim as coisas vão tomando seus lugares.

Na pesquisa por um timbre visual, há um pouco de tudo. Experimentando com fotografia, criando uma vista detalhada de uma espécie de mapa da ambientação onde a história transcorre, estudando criaturas em outras linguagens, como ao aplicar o Zbrush de uma forma um pouco inesperada, o importante é que dessa cultura inicial surjam as bases do que será uma narrativa coesa, construída assim mesmo, quadro a quadro, de grão em grão. Obrigado se chegou até aqui e logo que novos avanços permitam, voltamos com mais do bastidor dessa caminhada.

Nenhum Comentário »

Nenhum comentário ainda.

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URL

Deixe um comentário